quinta-feira, 21 de abril de 2011

Quinta e Sexta-feira Santas

Hoje e amanhã são dias santificados pela Igreja Católica. Na Quinta-feira Santa, hoje, o ponto central do significado religioso é a memoração da Última Ceia ou Santa Ceia: Jesus com os Doze Apóstolos numa refeição de despedida.

Leonardo Da Vinci, no Século XV, retratou a última ceia assim.

Uma despedida que como tal já era triste e mais triste ainda porque era véspera da morte de Jesus,
o Grande Mestre. Ele sabia o que estava para acontecer. Disse para aqueles seus doze principais seguidores que um deles haveria de traí-lo. Outro, o negaria três vezes, antes de o galo cantar.
Os demais seriam coadjuvantes. O traidor passaria para a história cristã como o vilão, o mau, o ruim, quase o próprio demônio¹. O negador não teria maiores problemas porque seria o guardião da porta do Céu. Jesus havia dito o perpetuado “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...
Dar-te-ei a chaves dos Céus”. Pedro era, ali, o mais importante depois de Jesus. Mas, mesmo assim, ele o negaria três vezes. Era o discípulo de sua maior confiança, mas o negaria. Ainda assim, seria perdoado e sua grandeza não ficaria diminuída. O traidor, não, era diferente. Teria que realizar sua malfadada missão para que se cumprissem as escrituras. Naquele cenário, o ator Judas e o ator Pedro tinham papéis equitativamente relevantes, mas o tratamento dado pela Igreja a cada um deles resultou em caminhos opostos. O valor das moedas que Judas recebeu para que fizesse com que Jesus fosse identificado pelos seus algozes, não lhe trouxe vantagens ou compensação, diante da grandiosidade da punição moral e religiosa, que estava por vir. Pedro recebeu a compreensão e o perdão. Judas a condenação. 
¹ Nas pequenas cidades do interior do nordeste brasileiro havia (ainda há?) a tradição da queima do Judas no sábado de Aleluia.
A Santa Ceia comemorada pela Igreja hoje, traz seu enfoque na figura central de Cristo. Cristo o Rei,
o Mestre, o Superstar! Entretanto, prevalece o exemplo de humildade refletido na cerimônia do
lava-pés. Glorifica o Deus feito homem hoje perpetuado, entre nós, ao se tornar pão.
A ênfase é a celebração da Eucaristia, cerimônia mor da Igreja Católica para preservação do Cristo vivo, in memoriam.

Se a Quinta-feira Santa nos traz as mencionadas reflexões, na Sexta-feira Santa as reflexões são diferentes. O sentimento é de dor, paixão, sofrimento. Recolhimento. Penitência. A imagem prevalecente é do Cristo sob o peso da cruz, sob os chicotes dos seus algozes. Senhor dos Passos. Sob o castigo dos humanos. Sob a pena de morte ao lado de dois ladrões: Um bom e um mau; um com medo do inferno (o bom) e outro sem acreditar no céu (o mau). Ao centro, um Jesus humano que pede para o Pai afastar dele aquele cálice, sobreposto pelo Jesus Eterno que se entrega e consente: “Que seja feita a Tua Vontade!”.  Senhor Morto.

A nós aqui, dois mil anos depois, continuam sendo impostos os chamados “Dogmas da Igreja”. A Igreja diz “é assim e pronto” e temos que aceitar como verdade inquestionável sua versão. Como está na Bíblia não se deve questionar, nem atribuir interpretações diferentes.

Eu gostaria de questionar para ser melhor cristão. Queria poder entender para aumentar a minha fé. Quando perguntamos para uma criança por que ela nos ama, muitas vezes respondem “porque sim”. Não interessa explicar, fundamentar. Basta acreditar! Adultos gostam de explicação.

Quando criança, eu sempre aceitei tudo que vinha da Igreja. Ela era perfeita, como perfeito é Deus. Eu tinha muito medo do inferno. Quando eu me achava “bonzinho”, cheguei a pensar até que seria bom morrer para ir direto para o Céu. Pensava que o papa recebia ordens de Deus. Ele era infalível. Depois fui crescendo e me “fuxicaram” outras coisas: falaram-me de uma “Santa Inquisição” que mandava castigar, até matar, quem não estivesse de acordo com a doutrina da Igreja no âmbito de seus domínios.  Fuxicaram tantas outras coisas, inclusive a interferência da Igreja no trabalho científico de Galileu Galilei.

Passei a me perguntar: Se a Igreja já reconhece alguns dos seus erros flagrantes de ontem por que amanhã não poderá reconhecer outros equívocos que ainda hoje continuam?

Enfim, não sou mais católico. Sou cristão. De qualquer maneira, hoje e amanhã não comerei carne, respeitarei a tradição. Estarei fazendo algum sacrifício? Não é bem assim. Comer peixe, especialmente o bacalhau, na semana santa é incomparável, parece ser mais gostoso. O vinho é bem vindo e muito bem lembrado. A ceia em família é um momento de confraternização.

A quinta e a sexta-feira santas, dias que antecedem a Páscoa, dentro ou fora da religião, podem proporcionar momentos de fé, esperança e amor. Ou não!...

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