terça-feira, 12 de julho de 2011

Fera ferida

Se você já chegou até aqui, você é fera!

Que tipo de fera você é? Só você mesmo pode dizer:
v  Fera agressiva, quando nos degradamos na selva de pedra, sendo pessoa ríspida, severa ou irritável;
v  Fera competente, quando nos sentimos seguros e determinados a vencer na vida;
v  Fera ferida, quando sofremos ou nos sufocamos, ou temos o peito atingido por amor ou não.  

Já sabe que tipo de fera você é?

Não nos preocupemos com a resposta. Somos um pouco de cada fera.
Importa é que prevaleça a fera vencedora, a determinada que mesmo depois de ferida não se deixe abater.

Na vida não só somos feridos como ferimos também.
Domesticados que somos, nem sempre avaliamos o risco. Deixamo-nos enganar por conveniência. Outras vezes não: somos enganados literalmente.

Não precisamos nada esquecer, mesmo porque quanto mais tentamos esquecer estamos lembrando.
Precisamos sim, perdoar. Perdoar primeiramente a nós mesmos pelo mal que nos causamos.

Depois de nos perdoarmos, fica fácil perdoar "a quem nos tem ofendido".
Em nossa essência, nós não mudamos. Podemos mudar o nosso comportamento.

A possibilidade de mudança de comportamento é que faz com que estejamos sempre disponíveis a nos ajustar à sociedade onde optamos por viver.
Assim, vale considerar a importância do tempo e do espaço em que vivemos.

Viver no Brasil de hoje já é diferente de quem viveu no Brasil há trinta anos.
Viver no Brasil de hoje é diferente, por valores e costumes, de viver neste mesmo tempo (hoje) em culturas orientais.

A essência dos indivíduos é a mesma em qualquer lugar, aqui ou na China. O que difere sãos os valores culturais que exigem correspondentes comportamentos.

Por isso, defino felicidade como o estado de harmonia entre o comportamento da pessoa e os seus valores. A harmonia ou o conflito interior é que faz emergir a sensação de felicidade ou infelicidade em uma pessoa em qualquer parte do mundo.

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

Cada um conhece as feridas que tem. Muitas vezes, os valores superam a essência da pessoa e ela não toma consciência da dor causada por suas feridas. Por seus valores gente se anula, se mata ou mata outros até em ataques suicidas.
Fera é você conseguir ser você mesmo (em sua essência), apesar de muitas feridas e suas correspondentes cicatrizes.
Fera sim, ainda que ferida e cansada no corpo, mas forte na alma e no coração!

domingo, 10 de julho de 2011

Família: Ontem, Hoje e Sempre?

Sou caçula depois de cinco irmãs. Quando criança, ouvi de uma delas a história “O Bicho Manjaléu” do livro “Histórias de Tia Nastácia” de Monteiro Lobato. Era a história de um filho caçula que saiu a procura de suas irmãs. Ele as visitou e depois seguiu o seu destino.
Em situação diferente do caçula daquela história, eu visitava minhas irmãs. Viajei por algumas léguas na garupa de um cavalo e passei dias de férias na fazenda do marido de minha irmã mais velha. Viajei de ônibus com meus pais para outra cidade onde morava minha segunda irmã casada com um rapaz de lá. A terceira irmã morava na mesma cidade que eu e, quase todo dia, eu ia lá pra casa dela. Depois ela mudou com o marido e os filhos para outra cidade e continuei a visita-la. A quarta irmã por um tempo ficou na capital a estudar e estive lá com meus pais para visita-la. A irmã mais nova, quinta irmã, casou-se e foi morar bem distante. Pouco tempo depois ela e o marido me levaram para passar meses de férias com eles por lá.

Cresci assim, visitando minhas irmãs. Cheguei a visitar também primos, primas, tios, tias e avós. A família estava sempre presente na nossa vida. Parentes, que eu conheci primeiramente por fotos no álbum de família, em sua maioria, tive a oportunidade de visitar depois.
O tempo passou, cresci, me formei, trabalhei, casei. Hoje aposentado, meus pais se foram para a outra vida, duas de minhas irmãs também. Restam três. Das três que restam, a mais velha já passa dos oitenta anos. Outra mora sozinha, por opção, na casa que foi de minha mãe. E a mais nova aqui na mesma cidade que eu, com o marido. Meus sobrinhos e sobrinhas estão dispersos em suas próprias moradas.
Que diferença faz? Para mim, é o envelhecimento com o passar do tempo. Para os meus filhos é a redução do conceito de família estritamente ao núcleo familiar.
Meus filhos são dois: um menino e uma menina, agora adolescentes. Moram comigo e a mãe deles. Estamos em período de férias escolares e nem viajamos. Eles reclamam por ter de ficar em casa. Diferente de minha situação com minhas irmãs, eles são de idade próxima, moram juntos e não têm a opção de se visitar. As tias estão na terceira idade e não têm mais paciência e força para lidar com adolescentes, por isso não se arriscam a convidá-los para passar uns dias em suas casas. Os primos e as primas deles continuam distantes sem a aproximação e a amizade que eu tinha com meus sobrinhos. Minha família de hoje parece se resumir a quatro pessoas. Eu, minha mulher e nossos dois filhos. Os outros parentes ficaram distantes. Contatos de vez em quando por telefone, mas sem aquela presença física de antes no dia-a-dia.

Meus filhos não têm o contato frequente que eu tive quando na idade deles. Eu sempre trouxe, dentro de mim, um sentimento forte de família. Família, para mim, sempre esteve em primeiro plano. Até ao ponto de, para agradar a família, sacrificar minha individualidade. Hoje, quase sessentão, tenho meus questionamentos sobre isso.

De qualquer maneira, é a dinâmica da vida. Ontem, o conceito de família era amplo, família grande. Hoje, a família é pequena: Pai, mãe e filho (um ou dois filhos).
Prevalecerá a individualidade? Há quem defenda a vida em comunidades.  O fato é que a família de ontem, século XX, não é exatamente a mesma em seu formato de hoje, século XXI.