domingo, 4 de novembro de 2012

SOB CONSELHOS DE UMA GRANDE ATRIZ

Assisti a um vídeo da Fernanda Montenegro no Youtube (*) onde, com muita sabedoria, ela aconselha o ator iniciante a desistir da carreira. Conselhos como “desista”, “não passe perto”, “saia disso”, vindos de tão respeitável senhora, orgulho do nosso país, soam inicialmente como uma sentença. A palavra “desista”, pronunciada com a autoridade de quem ela vem, ressoa forte dentro do coração inseguro de alguém que pensa que quer, mas não sabe se pode ou se vai conseguir ser o ator que deseja.
 
Mais adiante, na mesma entrevista, a grande dama do teatro brasileiro, completa: "agora se morrer porque não está fazendo isso, se adoecer, se ficar em tal desasossego que não tem nem como dormir, aí volte, mas se não passar por esse distanciamento e pela necessidade dessas tábuas aqui, não é do ramo".
 
Interessante... De lá pra cá, eu não consegui esquecer aquelas palavras. A palavra “desista” ficou martelando forte na minha cabeça. Eu não sou do ramo, tenho que procurar “a minha praia”. O teatro que na turma do básico me fazia feliz, não era agora a mesma coisa na minha turma do curso profissionalizante.
Desisti.
 
Desisti porque antes, no básico, eu me transportava cem por cento para aquele espaço e vivia com intensidade e presença momentos lindos. No profissionalizante, passei a me deparar com cobranças, com vaidades pessoais. Pessoas mais jovens se impunham diante de minha longa vivência. Eu, iniciante de teatro, embora sendo uma pessoa com mais idade, não tinha nada ou quase nada a acrescentar ao processo de aprendizagem em ebulição. Uma aprendiza jovem me disse: “Mais idade não quer dizer mais experiência”. Deu as costas pra mim e saiu sem ouvir o que eu tinha a dizer. Senti-me magoado naquele momento, mas depois percebi que diante das outras, ela era a mais verdadeira. Outras pessoas pensavam igualmente a ela, mas se escondiam em invólucros para não mostrar a postura que tinham.

O comportamento obscuro, duvidoso, não prevalece sobre a verdade por muito tempo. Se por alguns dias me senti integrado ao grupo, esse foi um sentimento “fogo de palha”, pois se apagou rapidamente. A negação de uma “atriz” em me dar um simples beijo numa cena que precisava passar uma verdade de amor do casal, não me deixou dúvidas que o rejeitado era a minha pessoa e não a cena em si, pois a mesma “atriz” abraçava e beijava colegas fora de cena. O afeto era natural, mas comigo, ainda que em cena, não havia espaço para um simples “beijo técnico” na testa. Passei a me sentir “um estranho no ninho”, “um peixe fora d’água”.

Embora o “professor” bradasse que havia espaço para sugestões ou reclamações, as vezes que procurei usá-lo não obtive ressonância no meu intento. Percebi depois de cada tentativa que eu não havia conseguido incutir as minhas ideias. Senti aquela tal situação em que a pessoa faz de conta que ouve o que você diz, mas prevalece com suas convicções iniciais como se nada de você tivesse ouvido. Cheguei a entregar ao professor um CD com cópias de músicas primitivas como sugestão para aproveitamento de alguma delas no rito inicial da peça. Para minha surpresa quinze dias depois, quando perguntei a ele se gostou, ele me respondeu que ainda não tinha ouvido. Daí em diante, sentindo descaso, eu não perguntei mais, nem ele comentou sobre o assunto. Eu esperava, pelo menos, ele dizer: Nenhuma daquelas músicas serve.
 
Dois meses antes da data prevista para a estreia da peça, o professor (diretor da peça) cobrou de mim, no ensaio, o texto literalmente decorado. Foi o estopim. Como improvisei muitas falas, ele me repreendeu na frente de todas aquelas pessoas jovens do elenco como se eu fosse um moleque. Sentindo-me humilhado, recorri a desculpas de “problemas pessoais” que não me estariam deixando concentrar em casa quando eu tentava estudar ou decorar o texto. Não adiantaria eu falar a verdade que era a falta de motivação que eu sentia e a rejeição por parte de muita gente do grupo e, por que não dizer, até mesmo por parte dele. A resposta que eu deveria ouvir, eu já imaginava qual seria: “Não é nada disso, você está pensando errado, etc. e tal”. As suas pupilas certamente não lhe negariam apoio. Importante não seria como eu estava me sentindo e sim como ele ou o grupo acharia que eu deveria me sentir. Para que, então, eu polemizar?

Problemas pessoais existem e nós os teremos a vida inteira. A dimensão de cada problema pode ser medida pela maneira como a pessoa o encara. Muitas vezes, pequenos problemas são do tipo “tempestade em copo d’água”. Outras vezes, grandes problemas são amenizados pela convicção de saber como resolvê-los. E assim, a vida segue.
 
Se a escola de teatro, inicialmente foi um ambiente onde eu me sentia inteiro e “esquecia os meus problemas do dia a dia”, nessa nova etapa passou a ser um problema a mais e, ao contrário, além da não contribuir para que eu me desligasse das preocupações pessoais, passou a ser “uma pedra no meu sapato”. Se antes eu ficava feliz em ir à escola, agora era um fardo, uma espécie de cumprimento de obrigação.
 
Diante do tratamento recebido e já comentado, optei por uma saída sem revanchismo e mantive na secretaria a mesma alegação pronunciada em sala de aula: “dificuldade em conciliar questões pessoais com as obrigações da escola” e cancelei minha matrícula. Tinha consciência que quaisquer críticas que eu fizesse não seriam acolhidas e não teriam serventia. Para que perder mais tempo, se a minha sabedoria adquirida pelo acúmulo da idade já me fazia ver qual seria “o final do filme”?
Tudo isso mexeu muito comigo. Questionei minha vocação para o teatro, já que aflorou tardiamente. Quase todos os atores trilharam desde cedo o seu caminho. A própria Fernanda Montenegro. Como que eu, depois de velho, poderia estar pensando nisso? Estaria sendo um velho ridículo como na leitura que faço no rosto de algumas pessoas que me perguntam por que estou fazendo teatro? Não adiantaria investir em carreira desse tipo porque a minha expectativa de vida não é a mesma de uma pessoa jovem? Que eu deveria fazer, então? Como aposentado, ficar em casa sem fazer nada ou voltar para o serviço burocrático? Cuidar dos filhos adolescentes até que ponto? A atenção e a proteção em excesso, tal e qual a desatenção e o abandono, podem ser prejudiciais. Enfim, um dilema: O que fazer da vida agora? É preciso estar bem comigo mesmo para estar ainda melhor com a minha família e as outras pessoas. Quanto mais feliz eu estiver, irradiarei felicidade para com quem eu interagir.
 
Assisti ao filme “Poder além da vida” (Peaceful Warrior) do diretor Victor Salva (**) e a grande mensagem que captei foi “viver presente, o presente”. Sentir o que acontece ao nosso redor. Estar presente. Quem vive o passado ou o futuro deixa de viver o presente. Isso me deu maior clareza do que ocorreu comigo na escola de teatro. Quando no básico, eu marquei presença física e mental no grupo, vivi intensamente, troquei energias. Assim me senti feliz e não ficou espaço mental para ocupação com outros pensamentos que não aqueles do estar ali. Na etapa seguinte, no terceiro mês de aulas, tive a certeza que não aconteceu empatia. Daí minha presença era quase somente física e não me sentia em sintonia com o grupo no processo.
A felicidade acontece quando se vive presente onde quer que a pessoa esteja. Viver fora do seu espaço do momento é abdicar de instantes da vida para remoer coisas do passado ou projetar ilusão futura. Viver o presente não exclui lembranças do passado, nem projeções do futuro, mas significa dizer que o foco prevalecente é o aqui e o agora.

Hoje, na minha realidade atual e voltando ao sábio conselho da grande Fernanda Montenegro, sinto inquietude e um vazio no meu coração com o temporário abandono do meu estudo de teatro. São noites seguidas em que penso e sonho me vendo em outras escolas, aprendendo com outras pessoas. Estarei sendo insistente, teimoso, “cabeça dura” ou apenas persistente?
 
Acho que tenho o dever, para comigo mesmo, de prosseguir. Buscar outros rumos, novas alternativas. Os caminhos possíveis não são poucos para a realização como ator. Importante é que a escola escolhida seja um lugar onde eu me faça presente, de corpo e alma. Assim estarei feliz e darei o melhor de mim. Não terei que esperar o “DRT” para me sentir feliz, a felicidade já se fará presente no próprio processo de formação do ator.


Fernando Asc

_____________________________________________________________________


(**) -  http://youtu.be/tQnkFvhSzgk